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Transfobia e a saga Harry Potter

Foto do escritor: Nicole CavalcanteNicole Cavalcante

Atualizado: 24 de fev.


Dolores Umbridge em Harry Potter e a Ordem da Fênix. [Imagem: Reprodução]
Dolores Umbridge em Harry Potter e a Ordem da Fênix. [Imagem: Reprodução]

Em setembro de 2020, o assunto do momento no X (antigo Twitter), surpreendeu a todos, principalmente os fãs da saga Harry Potter. Um livro que sempre falou sobre amor livremente, quebra de padrões e preconceitos enraizados na sociedade, e acima de tudo foi introduzido a política ao passar dos anos, escrito pela autora J. K. Rowling, passou a ser amplamente criticado no mundo inteiro. A hashtag “RIPJKROWLING”, utilizada em questão naquele mês, aconteceu pela declaração da autora contra pessoas transsexuais. 





Tuíte de J.K. Rowling em sua conta oficial no X (antigo Twitter).
Tuíte de J.K. Rowling em sua conta oficial no X (antigo Twitter).

Em tradução livre, a postagem original de J.K. Rowling diz: “Se sexo não é real, não existe atração pelo mesmo sexo. Se sexo não é real, a realidade de mulheres por todo o mundo é apagada. Eu conheço e amo as pessoas trans, mas apagar a concepção do conceito de sexo, torna a discussão sobre a vida das pessoas sem sentido. Não é ódio dizer a verdade.”


Nesse sentido, a opinião da autora remete a um apagamento da história de luta da comunidade transsexual por décadas, dizendo que alterar o significado de “sexo” na sociedade, da maneira que a comunidade trans propõe o debate, invisibiliza todas as pessoas que são cisgêneros, ou seja, se identificam com o sexo em que nasceram. Desse modo, a autora se revela transfóbica, vale ressaltar que a transfobia já é considerado crime em diversos países pelo mundo, inclusive no Brasil.














Para se obter uma noção, a luta pelos direitos das pessoas trans tem avançado globalmente, mas ainda enfrenta desafios significativos, como violência, discriminação e dificuldades no acesso a direitos básicos. Alguns países implementaram legislações progressistas, como o Canadá, com a Lei C-16, e a Argentina, cuja Lei de Identidade de Gênero permite a autodeterminação sem necessidade de laudos médicos. Na Europa, países como Malta, Dinamarca e Portugal adotaram medidas semelhantes. No entanto, em muitas partes do mundo, especialmente no Oriente Médio e na África, a identidade trans é criminalizada, com penas severas, incluindo prisão e até pena de morte.


A falta de dados concretos sobre essa população dificulta a formulação de políticas públicas, mas estima-se que haja cerca de 1,5 milhão de pessoas trans nos EUA e 2 milhões na União Europeia. No mercado de trabalho, a discriminação é evidente, com 30% das pessoas trans nos EUA já tendo sido demitidas ou recusadas devido à sua identidade de gênero.


A expectativa de vida da população trans na América Latina é de apenas 35 anos, reflexo da violência e da exclusão social. Diante desse cenário, datas como o Dia Internacional da Memória Trans, em 20 de novembro, e o Dia da Visibilidade Trans, em 31 de março, são fundamentais para aumentar a conscientização e promover o respeito e a inclusão dessa população.


Em relação à saga Harry Potter, desde o posicionamento contrário da autora, muitos fãs resolveram abandonar a saga, e pararam de consumir produtos sobre Harry Potter. A maioria diz que as pessoas que ainda “consomem” Harry Potter, são transfóbicos também. Abaixo vemos algumas declarações de pessoas no X:




Apesar disso, como citado antes, vale lembrar que a saga Harry Potter foi escrita quando o debate sobre transsexualidade e sexualidade em geral não era um foco de discussões, e aconteceu após o surgimento das redes sociais em 2010. À reportagem, Brian Correia, homem trans e fã da saga Harry Potter, explica sua opinião em relação às declarações da autora J.K. Rowling e justificou porque ainda consome a história do bruxo.



Segundo Brian na entrevista, ele sabe que essa é uma questão delicada, e que os fãs que fazem parte da comunidade transsexual precisam ter cuidado ao falar sobre Harry Potter. Porém, destaca que os pontos positivos da série é o que faz com que ele permaneça no fandom. O sonserino destaca que "espera que a autora mude sua opinião".


Já o especialista Thiego Novais acredita que as opiniões da autora não influenciam a saga. "Harry Potter se tornou muito maior que a J.K. Rowling", afirma o grifino na entrevista, confira o trecho completo abaixo:




Por fim, após os pronunciamentos transfóbicos da autora, os produtos lançados em relação à saga, incluindo produções audiovisuais da Warner Bros, que detém os direitos majoritários sobre a marca atualmente, não incluíram a participação de J.K. Rowling. Produções como “Comemoração de 20 anos de Harry Potter: De volta a Hogwarts”, “Harry Potter: Bruxos da Confeitaria” e Harry Potter: O campeonato das casas”, não contou com envolvimento da autora, que preferiu se manter afastada. 


Emma Watson, Daniel Radcliffe e Rupert Grint, com o elenco de Harry Potter em pôster de comemoração dos 20 anos de aniversário de Harry Potter. [Imagem: Divulgação/MAX]
Emma Watson, Daniel Radcliffe e Rupert Grint, com o elenco de Harry Potter em pôster de comemoração dos 20 anos de aniversário de Harry Potter. [Imagem: Divulgação/MAX]

Além disso, os próprios atores que interpretaram os personagens principais: Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), pronunciaram-se contra os posicionamentos transfóbicos da autora, sem contar com o restante do elenco que participaram de todos os filmes.


em 2023, a Warner Bros Games divulgou seu novo jogo de mundo aberto: Hogwarts Legacy. O estúdio responsável pela produção, Avalanche Software, apostou na diversidade, tanto nos desenvolvedores do game, quanto dentro do próprio jogo, sem nenhum crédito e envolvimento de J.K. Rowling durante seu processo, e os desenvolvedores ainda repudiaram as últimas declarações da autora. 



Sirona Ryan, primeira personagem transsexual do mundo de Harry Potter no jogo Hogwarts Legacy. [Imagem: Reprodução]
Sirona Ryan, primeira personagem transsexual do mundo de Harry Potter no jogo Hogwarts Legacy. [Imagem: Reprodução]

O jogo se passa muito antes de Harry Potter, com uma história que pretende ser aprofundada no audiovisual segundo a própria Warner Bros, portanto se tornando oficial, com a possibilidade de explorar o mundo de Harry Potter de forma totalmente livre, criar seu personagem sem limitações de gênero e introduziu a primeira personagem transsexual: Sirona Ryan, interpretada por uma mulher trans durante a produção.


A cicatriz na testa


Montagem feita pela Notorious Magazine.
Montagem feita pela Notorious Magazine.

Algo que precisa ser enfatizado em todo esse debate é: Harry Potter continua interligado somente à autora J.K. Rowling? Depois de sua morte, Harry Potter sobreviverá? Como já dito anteriormente, a história do bruxo com a cicatriz na testa se tornou muito maior do que as próprias editoras e a publisher esperavam. 


Harry Potter hoje conta com milhares de produtos dos mais variados nichos em diversos lugares do mundo, não são apenas livros, mas são: parques, artigos de entretenimento e colecionáveis, materiais escolares, produções independentes e jogos. Sem contar em uma comunidade incontável de fãs ao redor do mundo que alimenta a sua história todos os dias, explorando o mundo criado pela autora até de maneira mais profunda e com mais sentido do que antes.


O que de fato irá acontecer com Harry Potter depois da morte de sua autora, ainda não podemos prever, mas podemos ter um gosto a partir das novas gerações que surgirem. Como elas enxergam Harry Potter? Como será feito o marketing do bruxo para essas novas gerações? A única certeza que temos é que uma nova era está sendo desenvolvida pela Warner Bros, e ela deve começar em breve com a produção da nova série de Harry Potter anunciada pela MAX em 2024.




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©2025 Feito por nicole caVALCANTE DE FARIA, COM ORIENTAÇÃO DE ARTHUR RAPOSO GOMES PARA O TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO DE JORNALISMO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI

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