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O fenômeno Harry Potter na literatura e no imaginário de fãs

Foto do escritor: Nicole CavalcanteNicole Cavalcante

Atualizado: 24 de fev.


harry e rony em harry potter e a pedra filosofal
Cena de Harry Potter e a Pedra Filosofal [Imagem: Reprodução]

Se você ouvir a seguinte frase “O menino que sobreviveu”, qual é a primeira coisa que vem em sua mente? Se a sua resposta é imediatamente Harry Potter, ou a figura do menino baixinho de óculos redondos com uma cicatriz na testa, é materializada imediatamente em sua mente, possui um motivo claro para isso. A saga de livros Harry Potter, nasceu na Escócia, em Edimburgo, em 1997, da mente curiosa e esperta de J.K. Rowling. Segundo o Portal UOL, a cafeteria The Elephant House foi o lugar principal onde J.K. visitou e utilizou para escrever o primeiro livro da saga: Harry Potter e a Pedra Filosofal. Nesta cafeteria, a autora costumava se sentar em uma mesa que tinha vista para o castelo de Edimburgo e o cemitério de Greyfiars, locais que inspiraram a série. 


Desde o ano de lançamento, Harry Potter tomou proporções gigantescas que não marcaram apenas Edimburgo, mas o mundo inteiro. Ainda nos anos 90, a profissional Valerie Beerman, até então participante da Federação de Grupos de Livros Infantis em Edimburgo, na Escócia, acompanhou a carreira de J.K. Rowling e o fenômeno Harry Potter de perto, e nas palavras dela “J.K. Rowling ficou surpresa com o sucesso da série, pois não havia nada que pudesse compará-la”, para o documentário The Magical World of Harry Potter: The Unauthorized Story of J.K. Rowling, gravado em 1999. Ademais, segundo o documentário, a partir da publicação do segundo livro, as livrarias do Reino Unido tiveram que contratar agentes de controle, tamanha a repercussão da saga, e o lançamento só foi realizado ao final das aulas naquele mesmo dia.


Não foi apenas no Reino Unido que Harry Potter tornou-se o bruxo mais famoso e com mais vendas de livros infantis. Em 2000, a saga ocupou o terceiro lugar nos melhores Bestsellers do New York Times. Harry Potter vendeu mais de 18 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos. Os números revelados pelo New York Times demonstram a grandeza da saga entre as crianças, jovens adultos e também adultos naquela época, o bruxo com a cicatriz na testa conquistou público de várias idades, mesmo sendo uma obra infantil. Ainda, conforme Beerman, a saga Harry Potter incentivou a leitura principalmente para os meninos, que não tinham o costume de ler, sendo quase todo o público feminino. 


Mas Harry Potter não ficou só no imaginário das crianças, como também foi utilizado para fins pedagógicos nas escolas do Reino Unido. Uma pesquisa realizada pela School Stickers mostrou que 58% das escolas da região contam com uma divisão de casas. Segundo a mesma pesquisa, mais da metade (59%) das casas, foram criadas após o lançamento da série Harry Potter. Conforme a pesquisa, os professores afirmam que esse sistema traz à tona uma competição amigável, e oferece aos alunos sensação de pertencimento. No Brasil, a escola St. Paul’s foi a primeira escola britânica a ser fundada em São Paulo e também segue esse sistema de casas. Hoje, segundo o site, a escola conta com três casas: Stuart, Tudor e Windsor. No site, citam a série Harry Potter ao falarem sobre como funciona a seleção da casa para os estudantes.


Thiego Novais, grifino de coração, mas com um pé na Lufa-Lufa, é jornalista e criador de conteúdo sobre Harry Potter. Novais foi pioneiro na criação de Harry Potter na internet com o canal do YouTube Observatório Potter, em 2013, e desde então fala sobre a saga e suas novidades em suas redes sociais. Em uma entrevista, Thiego compartilhou suas opiniões sobre a influência da saga para a literatura e também em sua vida, confira a seguir: 





Thiego teve seu primeiro contato com a saga em 2001, quando foi assistir Harry Potter e a Pedra Filosofal, e destacou as lições que os livros trazem como uma influência positiva, complementando "Acredito que Harry Potter tem uma capacidade enorme de misturar elementos da realidade com o mundo mágico como, por exemplo, a plataforma 9 3/4 em King's Cross, um lugar que existe em Londres e é possível conhecer".


Ainda, Novais afirma que a série se manterá viva, assim como a explosão que foi nos anos 2000 com o lançamentos dos livros e primeiros filmes. "Certamente a série se manterá viva, já são 28 anos que o primeiro livro foi publicado, e a série segue mais viva do que nunca, com novas edições dos livros, produtos lançados para o público infantil, e com a nova série de Harry Potter, vão querer ler os livros para complementar o que viram visualmente".


O professor e pesquisador Suman Gupta, em sua pesquisa sobre globalização e literatura, afirma que não há no mundo um trabalho literário com mais credibilidade, desde o começo do século XXI, do que os sete livros da saga Harry Potter. Além disso, o livro foi adaptado para as telas, e teve um sucesso de vendas extraordinário, nas palavras do pesquisador. Já o mestre em Teoria Literária e Crítica da Cultura pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Felipp Agner Trindade Andrade, afirma em seu artigo “Literatura e Multimeios: O Fenômeno Harry Potter”, que a série Harry Potter é presente na cultura global como referência icônica e imagética de toda uma geração de leitores e fãs em escala global.


Além disso, com as novas ferramentas de interatividade, o leitor já não passa a ser mais leitor passivo, mas, também, consumidor, espectador e internauta. O leitor e fã de Harry Potter é convidado para imergir nesse mundo mágico e interagir e mudar o espaço de uma base criada pela autora J.K. Rowling nos últimos anos.


Isso acontece pela primeira vez a partir da plataforma Pottermore, o primeiro website oficial de Harry Potter, aberto para o público em 14 de abril de 2012, não se tratava apenas de mais um site para leitura, mas contava com recursos interativos para os fãs, como escolha da sua casa de Hogwarts e também poder interagir, esporadicamente, diretamente com a autora J.K. Rowling. No entanto, com o passar dos anos, o Pottermore cresceu ainda mais e teve mudanças tanto em seu nome, como a adição de novos recursos, e hoje é um site com todas as informações completas e oficiais sobre a saga, integrando o Wizarding World Digital


O que move o sucesso de Harry Potter na literatura, na verdade, é um ineditismo nunca visto antes na indústria. A autora conquistou milhões de fãs com os três primeiros livros: Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry Potter e a Câmara Secreta e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.  Mas não parou por aí, enquanto essas produções faziam sucesso fora das telas e Rowling fechava um contrato milionário com a Warner Bros para a sua adaptação cinematográfica, os outros livros lançados, até o lançamento do último livro da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte, em 2007, já tinha previsão de adaptação para as telas. Todos os elementos que compõem a história do bruxo mais famoso do mundo (atores, autor, personagens, programas de televisão, celebridades interligadas com a série), contribuem para o fenômeno Harry Potter se manter vivo até hoje, ultrapassando as barreiras do mercado editorial.


Gif de Harry Potter passando por gerações
Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint em montagem em homenagem à saga Harry Potter. [Imagem: Reprodução]

A ideia de que Harry Potter cresceu com seus leitores nunca esteve tão viva, mesmo para hoje. Esse é o argumento mais forte que os fãs utilizam para justificar seu amor a saga de J.K. Rowling. Discursos do tipo “Conheci Harry Potter na infância, mas só fui ler os livros com 11 ou 12 anos, quando Harry entra em Hogwarts, prendeu a minha atenção e a história me cativou”, são geralmente usados pelo público e ganham forte apelo quando vemos o quão grande a saga se tornou a ponto de novas gerações serem atingidas, mesmo sem viver, na prática, o que se tornou o bruxo no mundo inteiro. Hoje, é quase impossível ser uma criança e nunca ter escutado falar em Harry Potter, por menor que seja o burburinho. Porém, a saga se mantém firme no mercado editorial com novas edições a cada ano lançadas pela Rocco e pela Bloomsbury, que já tem data de uma próxima edição, focada especialmente nas crianças. 


Vale ressaltar que, a Bloomsbury Publishing é a editora oficial da série Harry Potter, e a Rocco é a distribuidora oficial da série no Brasil, quando lançou o primeiro livro em 2000. Rebecca McNally, é diretora de edição de livros infantis da Bloomsbury, parte do trabalho dela é garantir que os livros alcancem mais leitores da saga Harry Potter no mundo inteiro. Em uma entrevista, Rebecca fala sobre o “efeito Harry Potter” e corrige ao dizer que são vários efeitos, e não apenas um. A diretora se refere primeiro aos números do UK Bookscan (operação que rastreia as vendas nos caixas de livrarias no Reino Unido). Ela explica que em 1998, havia cerca de 34 milhões de livros infantis vendidos, em 2016, eram 64 milhões, e esse é um efeito que passa por Harry Potter.


Nally ainda afirma que há magia no momento de leitura dos livros e que tem um poder sobre seus leitores. Para os que cresceram ao redor dessa magia, foi um sentimento totalmente novo. Por isso, cada publicação de um livro era transformada em um acontecimento, pois os leitores esperavam ansiosos para continuar a história. Outro fator para o fenômeno Harry Potter, foi que a saga transformou os livros e a leitura em uma atividade compartilhada, e que havia um poder de atração, que trazia pessoas que não eram leitores habituais.



Cena de Harry Potter e a Pedra Filosofal [Vídeo: Reprodução/Youtube]

O ponto é, em que momento Harry Potter deixou de ser apenas uma série de livros para um fenômeno cultural? A diretora Rebecca Nally acredita que em termos de vendas brutas, foi após a publicação do Prisioneiro de Azkaban, terceiro livro da série. Segundo Nally, após os filmes serem lançados, atraindo novos públicos, os livros e filmes geraram público uns para os outros. Nas palavras de Nelly “Faz 20 anos da publicação do primeiro livro, e há fenômenos que vão e voltam, mas Harry está claramente aqui para ficar”, afirmou, em entrevista a The British Library.


Utilizar a menção apenas do nome “Harry”, ao se referir a saga do bruxo, também é um indicativo do grande fenômeno da saga, a proximidade que os livros têm com todos os tipos de público, pois o público se sente íntimo da história e participante dela após a leitura dos livros. Para os fãs, gostar de Harry Potter é um acalento, como diz o sonserino Brian Correia: “Harry Potter é o meu conforto, é algo muito especial para mim”, em entrevista à reportagem.



Brian Correia é um homem trans e fã de Harry Potter. No vídeo, Brian destaca que sabe e assume a responsabilidade sobre ainda ser fã da saga, porém acredita que a história é muito maior do que a autora J.K. Rowling que, nos últimos anos têm se declarado contra a comunidade transsexual.


Um último tópico que precisa ser abordado quando falamos sobre o fenômeno Harry Potter é a cultura pop. Sobre esse assunto, a doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora e professora na Universidade Vale do Rio Doce, Deborah Vieira, avalia, em entrevista à reportagem, o impacto das produções midiáticas na construção do imaginário coletivo e na forma como consumimos informações.


A cultura pop, muitas vezes relacionada a mero entretenimento, tem o poder de reforçar ou desconstruir imaginários. Segundo Deborah Vieira, ao consumir um produto cultural, estamos sendo atravessados por ele e, de certa forma, nos apropriamos das informações que transmite. "Quando um filme, livro, série ou qualquer outra obra discute a realidade, ela também nos chama a atenção para pontos que, por vezes, estão 'naturalizados', e nos leva a estabelecer comparações", afirma a professora. Nesse contexto, Harry Potter se torna um exemplo significativo. Embora comece como uma história voltada para o público infantil, a saga se expande para temas como amizade, justiça e luta contra sistemas opressores, refletindo dilemas contemporâneos.


Para Deborah, os estudos sobre os fãs (fandom) são uma maneira importante de entender o comportamento ligado ao consumo e suas implicações sociais. Ela destaca o envolvimento do Army, fandom do BTS, em campanhas como "Salve o Pantanal", para exemplificar como grupos de fãs podem se mobilizar para causas sociais. No caso de Harry Potter, o fandom também se engaja em discussões sobre diversidade, inclusão e questões políticas, especialmente diante das polêmicas envolvendo J.K. Rowling.


A professora também ressalta que a cultura pop não apenas reflete questões sociais, mas também participa da formação de valores e identidades. Ela cita filmes como "DivertidaMente" e "O Rei Leão" para ilustrar como produções voltadas ao público infantil trazem camadas de interpretação que atingem também adultos. Da mesma forma, Harry Potter ultrapassou gerações, servindo como porta de entrada para a leitura de muitas crianças e, ao mesmo tempo, sendo revisitado por leitores mais velhos que encontram novas camadas de significado na obra.

Os atores de Harry Potter nos bastidores
Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint nos bastidores de Harry Potter e a Pedra Filosofal. [Imagem: Reprodução]

O impacto econômico também é um ponto relevante quando falamos sobre cultura pop. Segundo Deborah Vieira, "Harry Potter foi e ainda é um fenômeno global. Estamos falando de um livro que era, a princípio, dedicado ao público infantil, mas que alcança diferentes idades. Sua relevância também é marcada pela indústria cultural, que expande o universo literário para os cinemas, jogos e itens da saga adquiridos por fãs". Essa expansão midiática torna a franquia não apenas um sucesso literário, mas também um império comercial.


Deborah reflete quanto a importância de analisar a cultura pop sob a perspectiva dos estudos culturais, em especial da cultura das mídias. "Os produtos midiáticos são criados embebidos na cultura, mas também a alteram de algum modo, sendo um espaço de disputas e tensões. O mais importante é observá-los como parte da sociedade da qual surgiram", conclui.


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©2025 Feito por nicole caVALCANTE DE FARIA, COM ORIENTAÇÃO DE ARTHUR RAPOSO GOMES PARA O TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO DE JORNALISMO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI

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